sábado, 19 de maio de 2018

UM DEUS QUE SORRI

(Martha Medeiros)


"Eu acredito em Deus. Mas não sei se o Deus em que eu acredito é o mesmo Deus em que acredita o balconista, a professora, o porteiro. O Deus em que acredito não foi globalizado.

O Deus com quem converso não é uma pessoa, não é pai de ninguém. É uma idéia, uma energia, uma eminência. Não tem rosto, portanto não tem barba. Não caminha, portanto não carrega um cajado. Não está cansado, portanto não tem trono.

O Deus que me acompanha não é bíblico. Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas e um pensamento que não se renova. O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão das diferenças, na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.

O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos. Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do vizinho são outras, e nossa penitência é a reflexão. Ave Maria, Pai Nosso, isso qualquer um decora sem saber o que está dizendo. Para o Deus em que acredito, só vale o que se está sentindo.

O Deus em que acredito não condena o prazer. Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas e violência, se não tem controle sobre traficantes, corruptos e vigaristas, se não tem controle sobre a miséria, o câncer e as mágoas, então que Deus seria ele se ainda por cima condenasse o que nos resta: o lúdico, o sensorial, a libido que nasce com toda criança e se desenvolve livre, se assim o permitirem?

O Deus em que acredito não é tão bonzinho: me castiga e me deixa uns tempos sozinha. Não me abandona, mas me exije mais do que uma visita à igreja, uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres: cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros. A cruz pesa onde tem que pesar: dentro. É onde tudo acontece e tudo se resolve.

Este é o Deus que me acompanha. Um Deus simples. Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe-tudo e vê-tudo. Meu Deus é discreto e otimista. Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas para incentivar, para me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: um abraço numa amiga, uma música na hora certa, um silêncio. É onipresente, mas não onipotente. Meu Deus é humilde. Não posso imaginar um Deus repressor e um Deus que não sorri. Quem não te sorri não é cúmplice."

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Árvore das Lágrimas


A ÁRVORE DAS LÁGRIMAS 

Naseem Rakha


Depois de oito anos da perda de seu filho de 15 anos em um suposto assalto, Irene, que só via sentido na pena de morte, resolve perdoar e escrever para o assassino. 
Escondendo da família sua atitude ela acaba por se envolver com o mesmo que responde suas cartas. 
O livro caminha pela mudança de cidade da família antes do acontecimento e tudo o que muda depois, tanto para a mãe quanto para o pai e a irmã da vítima. Em meio a tudo isso, vamos acompanhando Irene em sua perda e tentativa de se reencontrar em meio a tragédia.
O livro fala de amor e perdão, de perdas e os danos que nos causam, de preconceitos, de família e segredos, segredos estes que parecem ser para o bem mas podem tomar um rumo contrário. 
No final nos faz refletir sobre muitas coisas e em como o tempo nos faz mudar.
Para quem gosta de um bom livro. Mas preparem os lencinhos.
Grata surpresa, tornou-se um dos meus queridinhos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

FOBIAS

(Luís Fernando Veríssimo)


Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.




Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O Cântico dos Cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina…
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem… Tem uma carta da mamãe.
– Manda!"

texto retirado do livro "Banquete com os Deuses"




terça-feira, 25 de outubro de 2016

Margaret Keane



Durante mais de dez anos, Walter Keane ficou conhecido como o autor de quadros de crianças com olhos grandes e exagerados, expressão triste e lágrimas. No entanto, a verdadeira autora era a mulher, Margaret Keane.
Algum tempo após estarem divorciados Margaret decidiu que, se alguém perguntasse, não mentiria mais sobre quem realmente tinha pintado os quadros. Eles foram parar no tribunal e, quando o juiz ordenou que os dois pintassem para resolver a questão, Walter alegou dores no ombro. Margaret pintou o seu em 53 minutos e o juiz deu ganho de causa a ela.
Depois disso começou a aparecer a verdade: ele a controlava, não deixava ter amigos e, praticamente a mantinha em cativeiro produzindo quadros enquanto ele levava a fama. Obrigou-a a esconder tudo até da própria filha.
O filme "Grandes Olhos" de Tim Burton conta a vida de Margaret. 



Nos anos 60 muitas mulheres ficavam tão submissas aos maridos que se deixavam levar por eles. Obedeciam-lhes cegamente. Margaret levou anos para se libertar e mostrar que o talento por trás de tantas obras era o seu talento.
Abaixo algumas de suas obras:
















Margaret Keane está com 89 anos e nunca deixou de pintar.
Abaixo com Amy Adams que a interpreta no filme.