Do Diário de um Bebê
LEON ELIACHAR, O Homem ao Zero
1º mês
Completo hoje
trinta dias e confesso que já estou farto de ouvir "bilu-bilu" o dia
inteiro na minha cara. Por que os adultos não falam direito, fazem voz
esquisita e fanhosa, se sabem que não entendo nada do que dizem e muito menos
falando assim?
2º mês
Percebo que estão
todos apreensivos, suas caras mudam de expressão depois que abrem o jornal e
comentam que o preço do leite vai subir. Não sei por que essa preocupação se o
leite que eu tomo é de graça e é a mamãe que fornece. Se o leite subir, até que
é bom, porque a mamãe pode ficar rica.
3º mês
Quero esclarecer
que, quando molho a fralda, choro muito, mas é por causa da despesa que estou
dando. Sei como está difícil arranjar empregada pra lavar todo dia. Outra coisa
que me chateia e não posso reagir, é quando as visitas dizem que sou a cara do
pai. No princípio eu não ligava, mas agora, que já vi a cara do pai, não gosto
muito.
4º mês
A vovó tem mania de
ficar me balançando no colo e pensa que durmo por causa disso. Mas não é não. É
que fico tontinho e desmaio. A mamãe passa o dia inteiro lendo livros para
saber como cuidar de mim, mas os livros são tão diferentes que quem sofre sou
eu, pois ela fica sem saber o que fazer.
5º mês
Não gosto quando a mamãe insiste em tirar a minha chupeta e o papai diz que é melhor do que botar o dedo na boca. O que me incomoda não é nem a falta da chupeta nem do dedo; é a discussão na minha cara.
6º mês
Não gosto do meu
pediatra porque todo mês receita um monte de sopas que eu detesto e um monte de
remédios que quem detesta é a mamãe. Só gosto daqueles ferrinhos que ele traz
na malinha, mas toda vez que seguro um pra brincar, ele tira da minha mão e
enfia na minha garganta.
7º mês
Quanto às
mamadeiras, acho bom entenderem de uma vez por todas que não quero tomar, não
adianta ninguém insistir, nem me passar de mão em mão pra cada um tentar uma
vez. O problema não é trocarem as pessoas - é trocarem o leite, que eu conheço
o gosto.
8º mês
Aqui em casa todos
acreditam nos livros que ensinam "como cuidar do bebê", mas nenhum médico
nunca me consultou do que gosto e do que não gosto, pois quando eles escreveram
seus livros eu nem tinha nascido. Seguir estatística é nisso que dá: quem entra
pelo cano sou eu.
9º mês
Não adianta ficarem
dizendo na minha cara "mamã" e "papá", porque o certo é
"mamãe" e "papai". As pessoas grandes ensinam a gente a
falar errado porque acham que é mais engraçadinho - depois eu sei o que
acontece: de tanto a gente falar errado, eles acabam mandando a gente pra
escola.
10º mês
Coisa de que eu não
gosto é quando chegam visitas: entram no meu quarto pra ver se estou dormindo e
ficam falando baixinho que estou acordado. Depois vem outro e diz que estou
dormindo, depois vem outro e diz que acha que estou acordado - ninguém se
manca, pois com todo mundo cochichando não consigo dormir.
11º mês
Muito constrangedor
é quando deixo a sopa no prato, só pela cara da mamãe já sei que o preço dos
legumes subiu de novo. Coisa que não entendo é que todo mundo concorda que não
se deve bater numa criança, mas bem que de vez em quando me dão umas palmadas.
Não quero crescer nunca, acho gente grande muito nervosa.
12º mês
A maior emoção da
minha vida foi quando consegui ficar de bruços, porque esse negócio de ficar
deitado de costas é muito bom, mas é pro papai. Agora estou engatinhando e ouço
dizer que muito breve começarei a andar. Eles não perder por esperar: assim que
eu começar a andar, saio de casa.

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