quinta-feira, 8 de setembro de 2016

TREM NOTURNO PARA LISBOA



TREM NOTURNO PARA LISBOA
PASCAL MERCIER

Raimund Gregorius, professor de línguas clássicas em Berna, se levanta no meio da aula, abandona a sala e toma um trem para Lisboa. Em sua bagagem está um exemplar de reflexões filosóficas escrito pelo médico português: Amadeu de Prado. Fascinado pelo livro, Gregorius decide investigar o autor e vai ao encontro de pessoas que o conheceram. 
Livro dentro do livro: enquanto conhecemos a vida de Amadeu também nos são dados trechos de sua escrita. Ao mesmo tempo fazemos, junto com Gregorius, uma viagem mais interior do que exterior.
Abaixo um pequeno trecho dos pensamentos de Amadeu de Prado que Gregório vai lendo ao longo da sua viagem.

PALAVRAS TRAIÇOEIRAS
Quando falamos sobre nós próprios, sobre os outros ou simplesmente sobre coisas, o que pretendemos é – poderíamos dizer – nos revelar através das nossas palavras: queremos dar a conhecer o que pensamos e sentimos. Permitimos que os outros lancem um olhar para dentro da nossa alma... Compreendido dessa forma, somos os diretores soberanos, os dramaturgos autônomos, no que dize respeito à abertura da nossa interioridade. Mas, e se isso estiver completamente errado? Uma ilusão? Na verdade, nós não apenas nos revelamos com as nossas palavras, nós também nos traímos. Acabamos por revelar muito mais do que gostaríamos e, às vezes, acontece precisamente o contrário. E os outros podem interpretar as nossas palavras como sintomas de algo que nós próprios talvez nem conhecemos. Como sintomas da doença de sermos nós mesmos. Pode ser divertido observarmos os outros dessa maneira, pode nos tornar mais tolerantes, mas também pode significar munição. E se, no instante em que começamos a falar, lembramos de que os outros também agem assim conosco, então a palavra pode ficar entalada na garganta, e o susto pode nos emudecer para sempre.

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